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Alexandre Garcia
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Alexandre Eggers Garcia (Cachoeira do Sul, 11 de novembro de 1941) é um
jornalista que especializou-se na área política.
O jornalista Alexandre Garcia é formado na PUC/RS, onde depois lecionou. Seu
primeiro emprego foi no Banco do Brasil. Foi correspondente no exterior pelo
Jornal do Brasil e depois subsecretário de imprensa e porta-voz da Presidência
da República por 18 meses, no início do governo do general João Figueiredo. Foi
demitido depois de posar semi-nu para a revista, "Ele e Ela," deitado em uma
cama.
Foi diretor da sucursal de Brasília da extinta Rede Manchete, de onde saiu como
protesto pelo que chamou de excesso de nudez nas transmissões da emissora de
Adolpho Bloch dos bailes de Carnaval. Logo se tornou diretor de jornalismo da
Rede Globo em Brasília. É repórter especial, comentarista e apresentador no
Jornal Nacional, Bom Dia Brasil e tem programa semanal na Globonews. Apresenta e
coordena o noticiário do meio-dia da TV Globo Brasília. Escreve para duas
revistas mensais e mantém coluna semanal em 43 jornais. Tem comentários diários
em 80 emissoras de rádio.
Cobriu três guerras e recebeu da Rainha Elisabeth II a Ordem do Império
Britânico. Agraciado com 14 condecorações nacionais. Recebeu o Prêmio Volvo de
Segurança de Trânsito. Escolhido, pelo voto secreto dos estudantes de Brasília,
como Personalidade do Ano de 1996. Em 1997, o poder legislativo outorgou-lhe o
título de Cidadão de Brasília. Autor de João Presidente e Nos Bastidores da
Notícia, que vendeu mais de 50 mil exemplares e está na 11ª edição.
Atualmente apresenta algumas edições do Jornal Nacional e Globo Repórter, o
programa de entrevistas Espaço Aberto na Globo News, e é também editor chefe e
apresentador do telejornal DFTV, noticiário local da TV Globo Brasília.
Podcast: Alexandre Garcia comenta prisões de Dantas e Cacciola
ENTREVISTA - Alexandre Garcia
Data de publicação: 26 de agosto de 2006
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Testemunha da história
Há quase dois meses, com efeito multiplicador e instantâneo, circula pela
internet uma mensagem "informando" que Alexandre Garcia fora demitido da Rede
Globo, depois de fazer pesadas críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O governo, contrariado, teria pressionado a empresa a colocar na bandeja a
cabeça de um dos seus melhores jornalistas. A notícia é falsa e Alexandre Garcia
não está começando a leitura dos jornais pelo caderno de classificados,
procurando emprego.
Foi na TV Globo de Brasília que ele concedeu esta entrevista, rememorando a sua
trajetória profissional. Tal qual um correspondente de guerra, o relato do
repórter é esclarecedor de muitos fatos, até então desconhecidos. Ele faz
revelações inéditas, como o dia em que o presidente João Figueiredo ficou nu em
sua frente, sem qualquer protocolo, enquanto viajavam a bordo de um Búfalo da
FAB.
Um boato produzido por alguém na internet, gerando uma desinformação, acabou
proporcionando revelações esclarecedoras sobre uma época no país que precisa,
mais do que nunca, ser pesquisada, para a melhor avaliação histórica.
Marcone Formiga - Corre na internet o boato que você foi demitido da TV Globo.
Você sabe disso?
Alexandre Garcia - A internet aceita tudo. Pode-se botar qualquer coisa na
internet. Não faz nenhuma diferença... O que aconteceu foi o seguinte: aquele
comentário meu no Bom Dia Brasil estava circulando na internet. Circulando sobre
o epíteto: “Olha só a indignação do Alexandre Garcia”. Lá pelas tantas, deve ter
caído na mão de um internauta, provavelmente um garoto, que pensou: “Ah, então
foi por isso que ele foi demitido”, e espalhou. Por quê? Porque, para o garoto,
o meu nome é Franklin Martins. Deve ter sido isso. Se bem que o Franklin também
não foi demitido. Simplesmente não foi renovado o contrato dele. As pessoas me
cumprimentam na rua dizendo: “Sou seu fã, Paulo Henrique Amorim”, “como vai o
senhor, Hermano Henning?”, “vejo o seu programa todos os dias, seu Joelmir
Beting”. Então, o menino viu e pensou que fosse por isso que tiraram o Franklin
Martins.
Marcone Formiga - Mesmo você aparecendo na telinha, ou seja, visualmente
conhecido?
Alexandre Garcia - Eu costumo dizer que se, por exemplo, meio dia um sujeito
recebe uma mensagem pela internet dizendo que o sol não vai nascer, ele ficará
preocupadíssimo. Ele sabe que o sol já nasceu, mas leu na internet que o sol não
vai nascer. Existe um texto na internet, bastante piegas, que dizem que é meu.
Quando me perguntam se o texto é meu eu respondo que não, porque jamais
escreveria uma palavra do tamanho de “questionamento”, como está no texto. Eu já
li textos na internet do Fernando Pessoa dizendo: “espero que vocês me mandem
e-mails...” (risos) Vi até texto mal escrito do Fernando Veríssimo, prosa
horrorosa do Mário Quintana. São pessoas na internet, nesses casos, que sabem
que se mandarem um texto delas aspirando que seja lido, não vai ser... Então,
põe o nome de alguém conhecido para que alguém leia, ficando com o ego inflado,
já que, enfim, está sendo lido, embora sob o nome de Franklin Martins, Mario
Prata, Drummond... A internet aceita tudo. Agora, o que eu acho terrível é o
sujeito receber isso, me ver no “Bom Dia Brasil”, no “Globo Repórter”, no
“Espaço Aberto”, no “Jornal Nacional”, no “DF-TV”, e passar adiante para mais
vinte pessoas. Isso é uma maluquice!
Marcone Formiga - A sua origem foi a mídia impressa. Qual é a diferença?
Alexandre Garcia - No fundo, a minha origem foi com o microfone. Meu pai era de
rádio e, quando eu tinha sete anos, me chamava para fazer papéis infantis em
novela. Isso lá na Rádio Cachoeira. Naquele tempo, não havia gravador. O
gravador era de arame, que ninguém usava porque enroscava todo. Era ao vivo a
gravação da novela. Um dia me mandaram uma foto minha dentro de uma estrelinha,
escrito “os astros da radionovela”. Então, minha origem é do rádio, o improviso
vem do rádio. Fui locutor, noticialista e repórter. Depois, fui para Porto
Alegre, trabalhar na rádio Difusora, para pagar pensão e estudo. Trabalhava todo
dia de 10 da noite a uma da manhã. Com 16 anos, fazia transmissões de um clube
noturno, em um programa ao vivo, onde eu mostrava músicas do tempo de Luiz Bonfá.
O rádio me deu muita cancha no improviso, na linguagem rápida, na concisão.
Depois eu fui trabalhar no Banco do Brasil, mas o sangue me chamou de volta.
Então, fui fazer faculdade na PUC de Porto Alegre e consegui um estágio no
“Jornal do Brasil” que, pouco tempo depois, me efetivou. Subi rápido no “Jornal
do Brasil” porque já tinha alguma experiência com rádio.
Marcone Formiga - Foi nessa época que foi enviado especial a Argentina.
Alexandre Garcia - Pois é. Eu comecei a cobrir a Argentina quando morreu o
(presidente Juan Domingos) Perón. Era um período turbulento - havia a guerrilha
do ERP e a guerrilha dos Montoneros. Eu cheguei a ser seqüestrado pela dos
Montoneros (guerrilha nacionalista de esquerda, ativa durante os anos 70, na
Argentina). O sujeito me botou no chão, colocou a metralhadora na minha nuca,
disse que ia apertar o gatilho porque eu era um espião brasileiro. Ele viu a
minha carteira e entre as credenciais achou a da Presidência da República. Ele
viu o brasão da República e concluiu que eu fosse funcionário. Depois, ele disse
que botou uma bomba na maçaneta e foi embora nos deixando presos. Aí chegou a
polícia com o esquadrão anti-bombas, que acabou descobrindo que era uma falsa
bomba. Tempos depois, descobriram um cadáver de uma pessoa que estaria tentando
atravessar a fronteira com armas em Foz do Iguaçu portando meus documentos.
Quando fui requisitar outro passaporte eu registrei o episódio, para que a
pessoa, que usasse meu passaporte para entrar no país, fosse detida. Acontece
que quem foi preso fui eu no aeroporto do Galeão. Fiquei preso durante horas.
Liguei para o “Jornal do Brasil”, que ligou para a polícia. Fui solto com a
condição de que eu voltasse no dia seguinte para provar que eu era eu mesmo.
Marcone Formiga - Você entrevistou a Isabelita (María Estela Martinez, viúva de
Juan Domingos Perón, foi a primeira e, até hoje, única mulher a assumir a
presidência da Argentina)?
Alexandre Garcia - Não. A Isabelita foi uma confusão comigo. Ela estava doente,
com depressão, ficou internada no hospital da Força Aérea nas montanhas de
Córdoba, que era uma espécie de retiro para tratamento mental. O “Jornal do
Brasil” me pediu para que eu fosse tentar uma entrevista com ela. Chegando a
Córdoba peguei um táxi e pedi para que o taxista me levasse até o hospital, em
Ascochinga. Ele me respondeu que todas as estradas estavam fechadas por
barreiras militares, mas como ele era da região, propôs me levar por estradinhas
vicinais. Eu achei maravilhoso e fui com a maior irresponsabilidade. Quando eu
cheguei à guarita o oficial imaginou que eu tivesse passado por todas as
barreiras policiais e já veio me pagando continência e mandando entrar. Eu já
estava pensando que havia sido a condessa Pereira Carneiro (diretora-presidente
do Jornal do Brasil, na época) que ligou para ela dizendo que eu ia
entrevistá-la. Entrei em outra sala. Daí veio um coronel todo lustroso, que me
fez continência: “Señor, la señora lo espera!”. Eu pensei: “Puxa vida! Que
recepção! A condessa fez o serviço completo”, mas eu comecei a sentir algo
estranho. Ele começava a piscar o olho para mim, demonstrando certa
cumplicidade. Então, eu perguntei: “Coronel, a presidenta está mesmo me
esperando?”. Ele disse: “Si, señor. Tu eres el nobio. Nobio de la señora!”.
Percebi a situação e falei que era um periodista de um jornal do Brasil. Quando
eu terminei de dizer isso o coronel começou a ficar vermelho de raiva e começou
gritar para que fosse embora. Depois, quando eu voltei para Buenos Aires e
contei o episódio a um jornalista argentino, fiquei sabendo que o namorado dela
atual era um oficial da Força Aérea da minha altura, magro, que tinha deixado a
barba crescer e não usava mais farda.
Marcone Formiga - De jornalista credenciado no Palácio do Planalto você passou a
viver uma experiência diferente - foi para o outro lado, como porta-voz do
presidente João Figueiredo. Como foi, valeu a pena?
Alexandre Garcia - Foi válida e me ensinou muito. Fiquei 18 meses no cargo, de
1979 a 1980. Foi uma época politicamente muito boa. Houve a volta dos cassados e
banidos, com a censura já abolida. Foi um período de transição em que, muitas
vezes, eu atuei como mediador. O Freitas Nobre, líder do MDB, e o Alceu Colares,
vice-líder, se encontravam com o presidente Figueiredo por meu intermédio; o
Brizola mandava recado para o Figueiredo por meu intermédio. Um dos recados era:
“Segure os militares no seu lado que eu seguro a oposição no meu lado e vamos os
dois botar mais um tijolinho nessa democracia”. Aí o Figueiredo me dizia: “E
você acredita nele?”. Eu dizia então que só estava retransmitindo o recado. Raul
Ryff, que era porta-voz do Jango, certa vez em uma entrevista ao “Pasquim”, se
recusou a criticar o Figueiredo, dizendo: “Olha, eu não conheço o general.
Conheci o pai dele, que foi um democrata que lutou pela Revolução
Constitucionalista de São Paulo (o general Euclides Figueiredo). Como não o
conheço me recuso a criticá-lo”. Eu liguei ao Ryff para cumprimentá-lo e
agradecer em nome do presidente. O José Escarlate estava na minha sala e
noticiou isso no “O Globo” no dia seguinte. O Farhat (Said Farhat, na época
ministro da Secretaria de Comunicação Social) ficou uma fera comigo, dizendo que
eu não tinha nada o que falar em nome do presidente. Então vieram avisar que o
presidente estava chegando ao Palácio do Planalto. Quando o presidente chegou me
posicionei em fila - hierarquicamente, começando pelo general Golbery do Couto e
Silva (chefe do Gabinete Civil), o general Danilo Venturini, e assim por diante
- para cumprimentá-lo, lá no fim da fila. Naquele dia, quando abriu a porta do
elevador, o Figueiredo me procurou e viu-me no final da fila. Foi direto na
minha direção, deixando todo mundo de lado, para falar que tinha lido no “O
Globo”, que eu tinha cumprimentado o Ryff em seu nome e completou: “Muito
obrigado! É assim que faremos democracia”. Aí, eu flutuei, claro! E o Farhat
ficou roxo de raiva.
Marcone Formiga - Foi um aviso que a função de porta-voz não seria nada fácil?
Alexandre Garcia - Eu aprendi com o Rubão Ludwig (Rubens Ludwig, ministro da
Educação no governo João Figueiredo, e que fora porta-voz antes) que para ser
porta-voz tem que se saber a música. Sabendo-se a música coloca-se a melhor
letra para a ocasião. Eu sabia a música. Era “vamos fazer desse país uma
democracia”. Essa foi a primeira vez que o Farhat ficou com raiva de mim...
Marcone Formiga - A primeira. Porque ocorreram outras. Qual foi a próxima?
Alexandre Garcia - O “Correio do Povo”, de Porto Alegre, me pediu uma entrevista
para a edição de domingo. Aí eu fui perguntar ao Golbery se poderia dar essa
entrevista, e este ficou de acordo. Mas eu sabia que teria que dizer alguma
coisa importante para ser manchete. Não se limitar a falar sobre o dia-a-dia,
sobre o óbvio, teria que falar algo interessante. Fazia dois meses que o governo
tinha começado, e então Golbery me disse: “Pois diga que o sucessor do
Figueiredo será civil”. Foi manchete do “Correio do Povo” no domingo, e na
segunda-feira em todos os outros. O Farhat me chamou na sala dele dizendo que o
presidente estava furioso e perguntando quem havia me autorizado a falar aquilo,
já que era uma frase que teria que ser dita, com toda pompa e circunstância,
pelo presidente e não por mim. Desconfiei que ele estivesse blefando e blefei
também. Falei que havia sido o próprio presidente que mandou dizer. Depois disso
ele mandou eu me retirar da sala. Daí por diante, eu passei a ser porta-voz
direto sem passar pelo ministro, que era o meu superior imediato.
Marcone Formiga - Foi uma época muito rica de fatos...
Alexandre Garcia - Foi um período de muito aprendizado, além da satisfação de
ter participado do processo de abertura e saber como funcionam as engrenagens do
poder, as etapas de decisão que estão vigentes até hoje. Muita coisa hoje, como
comentarista, eu deduzo, porque se eu sei um décimo posso deduzir os outros
nove. Eu sei o que o presidente vai dizer sobre determinado assunto, porque
todos dizem o mesmo. Não é uma adivinhação. É uma aposta com 98% de certeza,
porque, lá dentro, o governo funciona igualzinho, seja de direita, de esquerda
ou de centro. Isso eu aprendi lá dentro e trouxe para fora. Acho que um ano e
meio foi suficiente para saber como funciona o outro lado. Conheci, digamos, o
lado oposto do jornalismo. Passei a compreender melhor a insistência de quem
queria furos, informações privilegiadas. Eu flagrei várias vezes, enquanto era
porta-voz, jornalistas em lugares onde não deviam estar. Mas eu entendia...
Marcone Formiga - Por exemplo...
Alexandre Garcia - O Chico Dias (repórter na época de O Estado de S. Paulo),
certa vez, pediu-me para entrar na Base Aérea de Belém, carregou minha mala para
dizer que era o meu ajudante, e entrou comigo. Foi quando eu estava na beira da
piscina, depois do almoço, e o chefe do SNI, general Octávio Medeiros, e o chefe
do Gabinete Militar, general Danilo Venturini, conversavam sentados na borda da
piscina. Então eu vi uma cabecinha debaixo d’água fingindo estar tomando sol.
Era o Chico ouvindo a conversa dos dois! Fui falar com ele depois dizendo que aí
já era demais, e ele, como já tinha ouvido o que queria, falou: “Pode deixar que
eu vou embora”...
Marcone Formiga - Conta-se que o Said Farhat tinha ciúme de você e por isso
provocou a sua demissão. Como foi esse episódio?
Alexandre Garcia - Eu havia sido entrevistado para a “Playboy” e aí o Flavinho
Cavalcante, na época da Bloch, disse que a “Ele & Ela” também queria uma
entrevista. Só que maior, com fotos. Fui perguntar para o meu guru, o ministro
Golbery, que respondeu: “Pode, sim. Vamos, em breve, tirar o Farhat. Vamos
extinguir a Secretaria de Comunicação Social e queremos que você fique como
secretário de Imprensa. Nada como dar uma entrevista para uma revista masculina
para projetar mais o seu nome, para virar depois secretário de Imprensa”. Dei a
entrevista, revisei, praticamente copidesquei. Então aquilo que está lá é meu
mesmo. O Flavinho me trouxe o primeiro exemplar que entreguei para o Figueiredo
ler. O Figueiredo leu a bordo de um Búfalo em uma viagem a Pindamonhangaba. Até
aconteceu uma coisa engraçada...
Marcone Formiga - O que foi? Ah, conta...
Alexandre Garcia - Estourou um cano do sistema hidráulico do avião sujando as
calças do presidente... Quando ele foi trocar as calças olhou para mim e disse:
“É perigoso tirar as calças na sua frente”! (risos) Foi a única observação que
ele me fez a respeito da entrevista.
Marcone Formiga - Mas, voltando ao Farhat, seu algoz...
Alexandre Garcia - O Farhat tinha respondido uma carta da mulher de um goleiro
do Atlético, que usou palavras de baixo calão para se referir ao presidente.
Respondeu devolvendo as palavras de baixo calão. Aí a revista “Veja” pegou essa
carta do Farhat e uma foto minha na entrevista, em que eu estava na cama, de
bermuda. O fotógrafo me cobriu com o lençol até o tórax e tirou as fotos. A
“Veja” pegou essa foto e a carta e lançou na capa: “Vulgaridade palaciana:
enquanto o ministro da Comunicação Social usa palavras de baixo calão em carta,
o sub-secretário de Imprensa nacional se deixa fotografar sob os lençóis em uma
revista masculina”. O Farhat pegou aquilo e deve ter pensado: “Para tirar do meu
eu vou botar no dele”. Então me chamou - e fiquei sabendo anos depois que ele
foi pegar o sinal verde com o Medeiros e não com o Figueiredo ou Golbery - e
veio, com toda força, com uma carta na mão para que eu assinasse pedindo minha
demissão. O Golbery não foi porque estava em casa doente, mas me ligou uma hora
depois: “Volta que vamos demitir esse turquinho agora!”. Eu respondi: “Desculpe,
ministro. Eu não vou voltar porque não quero criar crise no governo”. O Farhat
saiu uns 20, 30 dias depois...
Marcone Formiga - Aí, entrou a mídia eletrônica. Essa coisa de ter visibilidade
não é um pedágio alto, porque se perde a privacidade?
Alexandre Garcia - A visibilidade nacional veio após a Presidência da República.
Antes, eu assinava matéria no JB, mas uma vez ou outra aparecia minha cara. Eu
apareci junto ao Juan María Bordaberry (ex-ditador uruguaio), em uma entrevista,
na primeira página de um JB de domingo, dias depois dele ter fechado o
Congresso. Foi a minha glória como jornalista escrito. A manchete era:
“Bordaberry, exclusivo ao JB: ‘Todo poder é do civil’”. O civil era ele. Então,
comecei a mostrar a cara na "Manchete" a partir de 1983. Eu ficava muito
satisfeito com a repercussão. As pessoas vinham me falar: “Olha, o Armando
Nogueira lhe elogiou porque você faz gestos, seus olhos falam, você gesticula”.
Isso era no tempo que todo mundo pegava no microfone e ficava congelado,
declamando uma “decoreba”. Eu conversava, era uma coisa coloquial. Isso foi
proposital.
Marcone Formiga - Por que você saiu da Rede Manchete?
Alexandre Garcia - Eu saí da Manchete, por ter criticado a transmissão de
Carnaval, dizendo que tinha vergonha da cobertura. Disse isso em uma conversa
com a Cora Rónai e ela me pediu para usar na coluna dela e eu autorizei. Isso
saiu no “O Globo”. Aí o Adolfo Bloch me ligou: “Você não pode criticar assim”. O
fato é que, à noite, alguém convenceu o Adolfo que eu podia fazer um discurso
contra a Manchete naquele dia. Não me deixaram entrar no ar. Eu estava no
estúdio quando o Luís Fernando Valls, chefe de redação, falou que eu não poderia
entrar. Fui para casa e quando eu voltei no dia seguinte, o seu João, o velhinho
que cuidava do portão da Manchete, falou que tinha ordens do senhor Adolfo para
não me deixar entrar. Voltei para casa e tinha um almoço com o Inocêncio
Mártires Coelho naquele dia, na época procurador-geral da República, que me
disse que o que havia sido feito era um impedimento do empregador de acesso ao
trabalho. Então ele me aconselhou a procurar um advogado trabalhista e eu ganhei
em todas as instâncias. No tribunal eu tive uma satisfação muito grande, já que
foi voto unânime ao meu favor. O relator disse que meu insurgimento contra o
empregador foi em defesa da sociedade, porque todos haviam visto que era um
baixo nível a transmissão da Manchete. Foi a minha compensação.
Marcone Formiga - Tem gente aí querendo pegar carona na sua fama, se
candidatando com o seu nome a deputado...
Alexandre Garcia - Já é a segunda vez. O nome dele é maior que Alexandre Garcia.
Esse é só um pedaço do nome dele. Mas não ta colando. Na primeira tentativa, eu
tive que avisar para não votarem em mim, que eu não era candidato. Tem que
avisar para as pessoas não se confundirem.
Marcone Formiga - E a síndrome do plim-plim, aquela que acomete pessoas que
começam, na Globo, como repórteres, depois evoluem e começam a aparecer
frequentemente na tela e se portar como estrelas. E quando, por algum motivo,
são demitidas, se desestruturam emocionalmente. Você conhece casos assim?
Alexandre Garcia - Eu fui diretor de jornalismo da TV Globo Brasília durante
cinco anos. Eu costumava dizer o seguinte aos repórteres: “Não comece a levitar
depois que você der o primeiro autógrafo na Rodoviária. Você está dando
autógrafo não é por sua causa. É simplesmente porque você aparece na televisão.
O responsável não é você, é a telinha. Não caia nessa armadilha de começar a
achar que é astro, que deixou de ser jornalista, escriba, para ser artista”.
Lembrando Mário Henrique Simonsen, que dizia que “a tragédia do trapezista é
quando ele pensa que pode voar”.
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